O diagnóstico recente do especialista em aviação e criador do canal Aviões e Músicas, Lito Souza, de 59 anos, chamou a atenção pública para a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Trata-se de uma enfermidade neurodegenerativa extremamente rara, com menos de 100 notificações anuais no Brasil. A patologia se desenvolve quando proteínas celulares normais, conhecidas como príons, sofrem uma mutação e passam a se acumular de forma desordenada, provocando danos severos e fatais ao tecido cerebral. Embora existam casos hereditários ou relacionados a procedimentos médicos invasivos e consumo de carne contaminada, a imensa maioria das ocorrências tem origem ainda desconhecida.
Pesquisadores investigam se infecções virais prévias geram estresse celular capaz de desencadear esse acúmulo. A evolução do quadro é acelerada por um efeito dominó: ao interagir com as proteínas saudáveis, os príons alterados corrompem a estrutura delas, gerando uma reação em cadeia que resulta na morte celular. No caso de Lito Souza, sua esposa, Mila Seidl, relatou que o piloto mantém a lucidez, mas já apresenta perda de visão e severas limitações de mobilidade e fala, sintomas clássicos do avanço rápido da doença que costuma acometer pessoas mais velhas.
Atualmente, não existem terapias aprovadas capazes de conter a destruição neural. Contudo, duas frentes de pesquisa clínica nos Estados Unidos trazem esperança, capitaneadas pela farmacêutica Ionis e pelo Broad Institute, ligado a Harvard. Ambas buscam silenciar a produção dos príons saudáveis para reduzir o substrato da doença. O ensaio mais avançado, da Ionis, aplica uma molécula de DNA diretamente na medula dos pacientes. Um novo ciclo de testes começou em março de 2026, com resultados esperados para 2027, e a família de Lito tenta incluí-lo nos testes clínicos.
No Brasil, uma alternativa promissora surge de um consórcio entre UFRJ, UFF e UFG. Cientistas identificaram dois compostos da planta moringa oleífera — os ácidos clorogênico e neoclorogênico — capazes de bloquear a deformação proteica in vitro e desmanchar os aglomerados já formados. Financiado pelo CNPq e pela Faperj, o grupo busca parcerias na França para iniciar testes em animais. Em paralelo, a UFRJ centraliza a realização do teste RT-QuIC, padrão-ouro para detectar a DCJ em vida, exame rápido de alta precisão que os cientistas defendem ser incorporado com urgência ao protocolo de diagnóstico do SUS.








