Salvador (BA) – A cena é comum em quase qualquer lar: crianças e adolescentes de olhos fixos em telas de celulares ou tablets, completamente alheios ao que acontece ao redor. Mas esse hábito, aparentemente inofensivo, esconde um perigo silencioso para a saúde ocular dos mais jovens. Ao passarem horas concentrados nos dispositivos móveis, eles reduzem drasticamente a frequência de um gesto simples e essencial: o ato de piscar.
Essa desatenção involuntária impede a lubrificação correta da superfície dos olhos, gerando o que os especialistas chamam de olho seco. A condição ocorre quando a produção de lágrimas é insuficiente ou quando o líquido evapora de forma acelerada. Entre os sintomas mais frequentes relatados nos consultórios de oftalmologia pediátrica estão a queixa de ardência, coceira, vermelhidão, visão embaçada e uma incômoda sensação de areia nos olhos.
O alerta ganhou destaque em Salvador, onde médicos de todo o país debateram o tema durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), evento que se estende até o próximo sábado (12). De acordo com a oftalmologista Ana Paula Silverio, os consultórios têm recebido um fluxo crescente de pais preocupados com filhos que começaram a piscar de forma excessiva ou irregular após longos períodos de exposição a telas posicionadas muito próximas ao rosto.
O risco se torna ainda mais acentuado entre os adolescentes. Além de passarem grande parte do dia utilizando smartphones — que possuem telas menores e, por isso, exigem maior esforço visual —, muitos mantêm o hábito de navegar na internet já deitados na cama, em quartos completamente escuros. Essa combinação de pouca luminosidade externa com o brilho intenso do aparelho agrava significativamente o desgaste da visão.
A transição das atividades escolares para o lazer digital dificulta o controle dos pais. Muitas escolas já adotaram computadores e tablets como ferramentas pedagógicas obrigatórias, o que significa que o jovem sai da sala de aula onde já usou tecnologia e, ao chegar em casa, migra direto para o celular em seus momentos de lazer. Isolar os filhos desse ecossistema tecnológico é uma tarefa praticamente impossível nos dias de hoje.
Diante desse cenário desafiador, a alternativa viável é a moderação e o estabelecimento de limites claros dentro de casa. A recomendação estabelecida pela Sociedade Brasileira de Pediatria para crianças com mais de seis anos e adolescentes é de, no máximo, duas horas diárias de exposição a telas. Controlar esse tempo e incentivar pausas regulares para descanso visual são as melhores armas para evitar danos crônicos à saúde ocular dessa nova geração.







