São Paulo (SP) – A vulnerabilidade de São Paulo diante de doenças transmissíveis voltou ao centro do debate com o avanço de casos de sarampo na região metropolitana. Um cenário de risco que se consolida pelo fato de a capital paulista apresentar atualmente uma cobertura de imunização em torno de 75%, patamar significativamente inferior aos 95% exigidos para bloquear a circulação do vírus e evitar a propagação do agente infeccioso de forma definitiva.
Com um tráfego diário de milhares de passageiros internacionais, a metrópole funciona como uma porta de entrada natural para novos casos importados. Recentemente, diagnósticos associados a viajantes vindos da Bolívia, em fevereiro, e da Guatemala, em março, acenderam o alerta. No total, a atual temporada soma 24 infecções confirmadas no estado, das quais 23 se concentram na Grande São Paulo.
O reflexo da baixa imunização já se materializou de forma localizada. Na zona norte da capital, uma cadeia de transmissão ativa em uma creche de educação infantil resultou em sete casos na Vila Medeiros e dois na vizinha Vila Maria. Pelo menos um caso registrado em Guarulhos também possui vínculo epidemiológico com esse mesmo agrupamento. A maior preocupação dos sanitaristas recai sobre crianças menores de um ano, que ainda não têm idade para receber a vacina e representam a maior parcela de hospitalizações.
O infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações e presidente da Câmara Técnica para a Eliminação do Sarampo do Ministério da Saúde, explica que a contenção da doença depende de uma vacinação em massa homogênea e de vigilância ativa rigorosa. Segundo o especialista, o ciclo de contágio do sarampo dura cerca de 20 dias, iniciando com 10 dias de incubação silenciosa, seguidos por dois dias de transmissão antes da febre e até 12 dias após o início dos sintomas febris.
Kfouri adverte que baixas coberturas vacinais localizadas criam bolsões de vulnerabilidade ideais para a eclosão de surtos. Como nenhuma vacina oferece proteção absoluta a 100% dos indivíduos — estimando-se uma falha vacinal de 5% no ciclo tradicional —, a aplicação de uma dose de reforço é uma estratégia viável e de baixo custo para neutralizar essa margem de risco, alcançando eficácia quase total.
A atual dinâmica epidemiológica repete o padrão observado no ano anterior, quando o país contabilizou 39 casos, a maioria introduzida por caminhoneiros vindos da Bolívia, atingindo principalmente os estados de Mato Grosso do Sul e Tocantins. Atualmente, as equipes de saúde locais contam com testes disponíveis e seguem mobilizadas para a identificação precoce dos sintomas e o bloqueio de contatos próximos de pacientes sob suspeita.







