O cenário do câncer de pulmão no Brasil revela uma face preocupante da saúde pública. Dados coletados pela plataforma Data Câncer 360º indicam que a grande maioria dos pacientes chega aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) com a doença já em estágios críticos. Dos 14.145 diagnósticos registrados em 2023, 89,6% dos pacientes — totalizando 7.267 casos com estadiamento identificado — receberam a notícia do tumor quando ele já se encontrava nos estágios 3 ou 4. Nessas etapas avançadas ou de metástase, as chances de cura tornam-se significativamente menores.
O oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, aponta que essa estatística é um reflexo direto da falta de um programa estruturado de rastreamento no país. O médico explica que o câncer de pulmão é uma patologia silenciosa. Quando os sintomas aparecem, geralmente manifestam-se como tosse persistente, fadiga ou desconforto respiratório, sinais que frequentemente são confundidos com bronquites, gripes ou infecções banais, fazendo com que o paciente adie a busca por um diagnóstico especializado.
A situação é agravada pelo uso de métodos de diagnóstico ineficazes para a detecção oncológica precoce. É comum que pacientes recorram a unidades básicas de saúde e realizem apenas um raio X de tórax, exame considerado inadequado para identificar tumores pulmonares com precisão. Sem a tomografia, recomendada como padrão para grupos de risco, a doença evolui sem ser detectada. Além disso, o estudo aponta que, em cerca de 40% dos registros analisados, a qualidade da informação oncológica é insuficiente, falhando em apontar a extensão do tumor ou a existência de metástases.
O perfil de risco abrange tabagistas e ex-tabagistas — mesmo aqueles que pararam há 15 anos ainda mantêm probabilidade elevada de desenvolver a doença. No entanto, o oncologista ressalta que o impacto não se restringe a este grupo. Fatores como sedentarismo, obesidade, má alimentação, poluição atmosférica e exposição ocupacional a químicos compõem um quadro de vulnerabilidade crescente. O surgimento de dispositivos como cigarros eletrônicos, que atraem jovens e criam dependência rápida, preocupa especialistas como um potencial gatilho para futuras crises de saúde pública.
A solução, segundo o médico, passa por uma mudança estratégica no Ministério da Saúde: a implementação de programas de tomografia anual direcionados a quem apresenta fatores de risco. Tal medida poderia, inclusive, reduzir custos operacionais para o Estado, evitando tratamentos de alta complexidade e longa duração. A projeção do Instituto Nacional de Câncer (Inca) reforça o alerta, estimando mais de 35 mil novos casos anuais entre 2026 e 2028.
Casos como o de Mônica Chain Montone, diagnosticada duas vezes com câncer de pulmão e curada após intervenção precoce, ilustram a importância da prevenção. Ela defende que a conscientização, especialmente durante a campanha Respire Agosto, seja o caminho para que outros pacientes tenham a chance de descobrir a doença a tempo. Enquanto políticas públicas definitivas não são estabelecidas, a vigilância sobre os sintomas e a insistência por exames de imagem adequados permanecem como as únicas barreiras entre o diagnóstico tardio e a possibilidade real de cura.





