A espera por um transplante de córnea no Brasil tornou-se uma jornada de paciência exaustiva. Hoje, um paciente aguarda, em média, 370 dias para realizar o procedimento — um período que mais do que dobrou em relação aos 174 dias registrados há uma década. O atraso se acentua justamente em um momento de produtividade inédita, no qual o país celebra o recorde histórico de 17.790 cirurgias realizadas em um único ano.
O gargalo é matemático. Embora o sistema de saúde opere próximo ao limite de sua capacidade de absorção da demanda anual, o ritmo de novos diagnósticos supera o volume de cirurgias. A fila ativa saltou de 32.639 pessoas em dezembro para 37.719 em apenas seis meses — uma alta repentina de 24% que estrangula o fluxo de atendimento.
Obstáculos financeiros e herança da pandemia
Por trás desse travamento operacional estão fatores que vão da economia à regulação. Os bancos de olhos enfrentam sérias dificuldades para manter suas estruturas devido à alta de insumos importados, cotados em dólar, enquanto a tabela de repasses públicos permanece congelada há dez anos. Além disso, novas exigências sanitárias e de controle de qualidade encareceram o processamento dos tecidos.
O represamento provocado pela crise da covid-19 também cobra seu preço. No primeiro ano da pandemia, com a suspensão de cirurgias eletivas para poupar leitos hospitalares, o número de transplantes despencou para 7.349, menos da metade do ano anterior. A retomada gradual restabeleceu o fôlego da rede de saúde, mas não bastou para absorver o passivo acumulado no período.
Desigualdade regional e perfil dos pacientes
A agilidade do atendimento varia drasticamente no território nacional. O Ceará consolidou-se como referência ao realizar 1.371 procedimentos e encerrar o ano com apenas 93 pacientes na fila, mesmo tendo recebido mais de 1,6 mil novas inscrições. O Mato Grosso também se sobressai, com uma fila residual de 37 pessoas. No extremo oposto, o Rio de Janeiro acumulou 4.760 pessoas sem assistência em dezembro, após realizar somente 653 cirurgias para um fluxo de 1.720 novos candidatos.
São Paulo lidera a fila absoluta com 7.505 pacientes, seguido por Minas Gerais com 4.532 ativos, embora ambos mantenham um fluxo proporcional mais equilibrado que o fluminense. Já os estados do Amapá e de Roraima terminaram o ano sem registrar nenhuma cirurgia dessa natureza. Entre os que aguardam, as mulheres representam 56% do total, e os idosos somam 47% dos pedidos. Preocupa ainda a fila infantojuvenil, que alcançou a marca de 753 crianças e adolescentes à espera de doadores.








