A taxa de mortalidade por câncer de mama entre mulheres negras supera em 3,8 vezes o índice registrado entre mulheres brancas no país. Embora a incidência do tumor seja numericamente superior na população branca, o desfecho fatal atinge desproporcionalmente as pacientes negras, escancarando entraves estruturais no acesso ao diagnóstico precoce e às terapias adequadas no sistema de saúde.
Os dados integram o estudo Disparidades Raciais na Incidência do Câncer de Mama, primeiro volume de uma série produzida pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). A pesquisa aponta que a assiduidade na realização de exames preventivos de rotina, sobretudo na faixa etária de 50 a 69 anos, é significativamente menor entre mulheres negras. Além disso, constata-se uma presença elevada do subtipo triplo negativo, forma biologicamente mais agressiva da enfermidade.
Para a direção do órgão, a disparidade reflete a combinação de fatores biológicos mais severos com a falta de equidade no atendimento público, culminando na identificação tardia da lesão. Desigualdades socioeconômicas, condições estressantes de vida, fatores genéticos e a elevação no consumo de bebidas alcoólicas — conduta associada ao surgimento de neoplasias mamárias — agravam a vulnerabilidade desse grupo.
A experiência da artesã Solange Barbosa de Freitas, de 57 anos, exemplifica o peso do rastreamento assintomático. Ela descobriu o tumor em 2019, durante uma campanha do Outubro Rosa no Rio de Janeiro. Sem histórico familiar conhecido do lado paterno e sendo a primeira a enfrentar o diagnóstico no lado materno, a paciente passou por um tratamento delicado que envolveu três intervenções cirúrgicas, mastectomia e reconstrução da mama.
No Brasil, o câncer de mama figura como o tipo mais frequente entre as mulheres, com cerca de 80% das ocorrências registradas a partir dos 50 anos. Adoção de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, atividade física regular, controle do peso corporal e aleitamento materno, pode prevenir cerca de 17% dos casos. A apresentação do levantamento ocorreu na sede do Inca, na Praça Cruz Vermelha, no centro do Rio de Janeiro, marcando também o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra.







