Fortaleza (CE) – O Anfiteatro Sérgio Motta, localizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, tornou-se palco de um chamado urgente durante a segunda edição da feira Febre de Arte. Palestrantes convocaram o público a priorizar, nas próximas eleições, candidatos comprometidos com uma política de drogas alinhada à justiça social. Para os convidados, o voto deve ser direcionado a projetos que superem o punitivismo e ofereçam soluções viáveis para a população brasileira.
A médica Magda Almeida, docente da Universidade Federal do Ceará, criticou a simplificação ideológica que reduz o debate à premissa de que a maconha é estritamente prejudicial. Ela observou que, enquanto o estigma persiste, o sistema de saúde ignora o potencial terapêutico da cannabis em quadros de ansiedade e dor crônica. Segundo a especialista, o uso de fármacos como a pregabalina — associado a efeitos colaterais severos, como pensamentos suicidas e síndrome de abstinência — é frequentemente prescrito de forma genérica, sem considerar as necessidades individuais de cada paciente.
O debate também focou nos custos sociais e econômicos da atual estratégia de segurança. O advogado Italo Coelho, do Ceará Saúde Livre, apontou a contradição entre a legalização da venda de derivados de cannabis em farmácias e a continuidade das prisões de cidadãos por quantidades mínimas, frequentemente classificados como traficantes. Tamára Silva, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, reforçou que a lógica do Estado segue centrada apenas em repressão, ampliando o poder de facções e milícias que, atualmente, influenciam a rotina de milhões de brasileiros.
Os números apresentados reforçam o peso dessa política. Dados da Pastoral Carcerária Nacional indicam que famílias chegam a gastar 70% de um salário mínimo para manter itens básicos de higiene a parentes encarcerados, um ônus que totaliza R$ 4,33 bilhões anuais. Em um cenário mais amplo, o custo relacionado à implementação da Lei de Drogas em apenas seis estados atingiu R$ 7,7 bilhões em 2023, enquanto o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estima que os homicídios ligados à proibição subtraiam cerca de R$ 50 bilhões anuais do PIB.
Bianca Cardial, advogada antiproibicionista que mediou os painéis, alertou para o fato de que, enquanto o evento ocorria em Fortaleza, prisões por porte de cannabis continuavam acontecendo. A Febre de Arte, organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica, incluiu em sua programação a Rua das Associações, espaço voltado para o acolhimento de pacientes que utilizam o tratamento à base de cannabis, buscando integrar a experiência técnica com a demanda por mudanças estruturais no país.








