O silêncio sobre o desejo de doar órgãos ainda deixa muitas famílias brasileiras em dúvida no momento mais difícil, resultando em uma taxa de recusa familiar de 45%. Para tentar romper essa barreira e garantir que a vontade individual seja respeitada, a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo) surge como uma alternativa digital e gratuita. Desde sua criação em 2024, o sistema já contabilizou a adesão de mais de 32 mil cidadãos em todo o país.
O processo é totalmente virtual. Sem precisar comparecer a um cartório, o interessado acessa a plataforma e-Notariado, preenche os dados necessários e agenda uma rápida videoconferência com o tabelião para validar sua identidade. Essa assinatura eletrônica alimenta diretamente a Central Nacional de Doadores de Órgãos, banco de dados que pode ser consultado de forma rápida por profissionais do Sistema Nacional de Transplantes. A qualquer momento, o cidadão pode especificar quais partes do corpo deseja doar ou revogar o documento.
Até o momento, os cartórios de notas registraram 32.587 manifestações por meio da plataforma. No entanto, os números mostram uma desaceleração recente: foram 18.659 solicitações em 2024, caindo para 8.886 em 2025 e 5.042 em 2026. Essa tendência de queda pode estar associada à diminuição das campanhas públicas de divulgação. São Paulo lidera o engajamento nacional com 9.399 registros, acompanhado por Paraná (3.818), Rio de Janeiro (2.930), Minas Gerais (2.172) e Rio Grande do Sul (2.012).
Essa desaceleração contrasta com a realidade urgente das filas de transplantes. Atualmente, mais de 49 mil brasileiros aguardam por uma doação, dos quais aproximadamente 45 mil necessitam de um rim. O cenário também se mostra crítico para quem precisa de córneas: a fila de espera atinge 37.719 pessoas, um avanço de 15% em comparação com dezembro de 2025, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
Como a legislação nacional determina que a palavra final pertence aos parentes do falecido, Eduardo Calais, presidente do Conselho Federal do Colégio Notarial do Brasil (CNB/CF), enfatiza que a formalização pela Aedo funciona como um facilitador essencial para iniciar o diálogo doméstico. Diante da proximidade do Dia Nacional de Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, a orientação é clara: além de registrar a intenção digitalmente, é fundamental conversar com a família sobre a decisão de salvar vidas.







