O perfil de quem busca auxílio no grupo Jogadores Anônimos mudou drasticamente nos últimos anos. Luiz Carlos, integrante da irmandade, relata a presença frequente de adolescentes de apenas 14 anos em busca de suporte para controlar o vício em apostas. A precocidade do problema é acompanhada por jovens de até 35 anos que, imersos no ambiente virtual, perdem a noção real do valor do dinheiro.
Gustavo Pereira, hoje com 24 anos, exemplifica a gravidade da situação. Entre os 18 e 24 anos, viu meio milhão de reais desaparecerem em plataformas de apostas. O que começou como uma ilusão de ganhos rápidos transformou-se em uma rotina de ganância e distorção da realidade financeira. Atualmente, ele tenta reconstruir sua trajetória vendendo café nas ruas de Lages, Santa Catarina, enquanto atua na conscientização de outros apostadores.
A vulnerabilidade dessa faixa etária não é coincidência, mas uma questão biológica. Segundo a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, o cérebro de crianças e adolescentes ainda está em pleno desenvolvimento. Enquanto o sistema de recompensa, movido pela dopamina, opera de forma acelerada, a área responsável pelo controle de impulsos e avaliação de riscos só atinge a maturidade por volta dos 20 anos. Isso torna o jovem alvo fácil para a gratificação imediata das bets.
O cenário é agravado pela onipresença dos smartphones, que funcionam como cassinos de bolso. Dados de 2021 do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) já apontavam que uma em cada cinco pessoas iniciava apostas online até os 11 anos. Pesquisas mais recentes confirmam que a tendência persiste, impactando inclusive o orçamento destinado à educação. Levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) indica que 14% dos universitários já precisaram trancar cursos ou atrasar mensalidades devido aos gastos com jogos.
Em resposta à crescente exposição digital, o governo federal sancionou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em vigor desde março de 2026. A norma estabelece a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado, exigindo mecanismos de verificação de idade mais rigorosos. Para o advogado Felipe Moreira, a medida é um passo necessário para combater a publicidade enganosa, especialmente aquela mediada por influenciadores digitais, que contornam o senso crítico dos jovens ao apresentarem apostas como recomendações pessoais de confiança.
Tiago Braga, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), reforça que a aposta online deve ser encarada como gasto, não investimento. Com cerca de 24 milhões de brasileiros apostando em 2024, a associação entre o endividamento e quadros de saúde mental — incluindo ideação suicida — tornou-se uma preocupação central para especialistas e instituições de ensino, que buscam agora estratégias de acolhimento para enfrentar um problema que, antes, ficava escondido atrás da tela dos aparelhos.







