A imunização em massa de meninas e meninos na rede pública de saúde alterou profundamente o mapa do câncer de colo do útero entre as jovens brasileiras. A busca por atendimento médico devido a neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau — alterações celulares graves que antecedem o aparecimento do tumor — despencou no país. Entre a faixa de 15 a 19 anos, a taxa de consultas por essas lesões caiu de 7,1 para cada 100 mil adolescentes em 2015 para apenas 1,8 em 2023, o que representa um recuo de quase 78% no período.
A trajetória desse indicador reflete diretamente a introdução da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS), iniciada em 2014 para o público feminino e expandida para o masculino em 2017, atendendo atualmente jovens de 9 a 14 anos. Antes da vacinação, os atendimentos iniciais para tratar essas alterações estavam em alta: subiram de 474 casos em 2011 para 603 em 2015. A virada ocorreu logo nos anos seguintes, quando as consultas desceram para 299 em 2019 e atingiram a marca de 136 em 2023. Projeções indicam que cerca de 5 mil diagnósticos foram evitados entre 2011 e 2019 graças à barreira imunológica.
O impacto exclusivo da imunização fica evidente ao comparar com o comportamento de outras infecções sexualmente transmissíveis na mesma faixa etária. Enquanto a busca por tratamento das lesões ligadas ao papilomavírus humano desabou, as consultas motivadas por outras infecções dispararam no mesmo grupo, passando de 1,7 para 10,8 a cada 100 mil adolescentes entre 2015 e 2023. Esse contraste confirma que a proteção direta conferida pelo imunizante, e não mudanças gerais no comportamento sexual ou no uso dos postos de saúde, foi o fator determinante para frear a enfermidade.
O vírus é responsável por disparar quase a totalidade dos quadros de câncer de colo do útero, a terceira neoplasia mais frequente entre as mulheres no Brasil, somando cerca de 19 mil novos casos e 7 mil mortes por ano. Além disso, o microrganismo, com o qual até 80% da população terá contato ao longo da vida, relaciona-se ao desenvolvimento de tumores no pênis, ânus, vagina e orofaringe.
Para sustentar esses resultados e avançar no objetivo da Organização Mundial da Saúde de erradicar a doença, o foco atual se volta para a manutenção de altas taxas de vacinação e o resgate de adolescentes até 19 anos ainda não imunizados. O imunizante também segue disponível na rede pública para populações vulneráveis, incluindo vítimas de violência sexual, usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV e pessoas com histórico prévio de lesões.







