O silêncio que se instala após a última sessão de quimioterapia esconde uma realidade dolorosa para muitas mulheres. Embora o encerramento do protocolo clínico seja celebrado por amigos e familiares como a vitória definitiva sobre o câncer de mama, a sensação de desamparo e o medo constante de uma recidiva costumam acompanhar as pacientes na retomada de suas vidas.
Aos 48 anos, a moradora de Volta Redonda Josiane Fernandes vivenciou esse abismo entre a alta médica e a verdadeira recuperação. Ela descobriu um nódulo na mama esquerda no início de 2025 e confirmou o diagnóstico em março, iniciando uma jornada de cirurgia, quimioterapia e imunoterapia que durou cerca de um ano e três meses. Josiane enfrentou a depressão de forma isolada, revelando a gravidade da situação ao marido apenas após a biópsia. Hoje, ela relata sentir pânico a cada consulta de rotina, evidenciando que o sofrimento não cessa com a cicatrização das feridas físicas.
Essa vulnerabilidade decorre da súbita redução da assistência médica cotidiana. A psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira explica que as pacientes passam meses cercadas por profissionais de saúde e exames constantes. Quando esse ciclo acaba, instala-se um vazio. Além do isolamento social que ocorre quando o entorno assume que a crise passou, persistem efeitos físicos severos, como fadiga decorrente de terapias hormonais de até cinco anos, cicatrizes, alterações na sexualidade e distorções na autoimagem.
Para atenuar esses impactos, a abordagem terapêutica precisa ir além da eliminação do tumor. A médica mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, atuante no Instituto Nacional de Câncer (Inca), aponta que a patologia ainda carrega o estigma de uma sentença de morte. Segundo ela, um suporte multidisciplinar — envolvendo assistentes sociais e especialistas em psico-oncologia — é vital para avaliar a intensidade do medo e a necessidade de suporte medicamentoso, garantindo que a mulher não precise reconstruir sua identidade de forma solitária.
O câncer de mama continua sendo o tumor de maior incidência no público feminino, correspondendo a 30% das ocorrências no país. Projeções do Inca para cada ano do triênio de 2026 a 2028 apontam o surgimento de 78.610 novos casos no Brasil, o que equivale a um risco de 71,57 diagnósticos para cada 100 mil mulheres. O desafio coletivo, portanto, reside em estender o acolhimento para além da cura física, assegurando que o ponto final do tratamento não represente o início do isolamento.








