Quase metade dos médicos que atuam em unidades de terapia intensiva no país, cerca de 48,5%, vive sob um estado de esgotamento mental e emocional elevado. O cenário, que acende um alerta sobre a saúde dos profissionais que lidam diariamente com a linha de frente da medicina crítica, foi mapeado por um inquérito que ouviu 2.338 médicos em todos os estados e no Distrito Federal.
Além do desgaste, o estudo aponta que 46,4% desses especialistas demonstram baixa satisfação com suas atividades laborais. Quando somados aos que possuem níveis moderados de descontentamento, o grupo de médicos que não se sente plenamente realizado na profissão chega a 84,5%. Esse fenômeno é associado por especialistas a uma combinação de fatores: carga horária excessiva, exposição constante à dor e à morte, e as dificuldades impostas pela infraestrutura precária em diversas regiões.
O diretor de comunicação do Conselho Federal de Medicina, Estevam Rivello, observa uma disparidade clara entre os sistemas público e privado. No serviço público, a pressão é agravada pela escassez de recursos terapêuticos e pela remuneração desfavorável, o que força muitos profissionais a acumularem múltiplos vínculos empregatícios. Essa rotina exaustiva acaba cobrando um preço alto na saúde mental da categoria.
O impacto vai além do cansaço físico. Aproximadamente 45,6% dos intensivistas relatam sintomas de despersonalização, um estado em que o médico adota posturas apáticas, frias ou cínicas em relação a pacientes e colegas. Esse distanciamento emocional, segundo as entidades responsáveis, não apenas compromete a qualidade do atendimento, como atenta contra a própria humanização do cuidado necessário em um ambiente de terapia intensiva.
Um dado importante do levantamento indica que o nível de especialização funciona como um fator de proteção. Médicos com formação específica na área de terapia intensiva apresentam índices menores de burnout e maior realização pessoal do que seus colegas generalistas que ocupam postos nas mesmas unidades. Entre os generalistas, o esgotamento chega a 52,3%, enquanto a insatisfação com o desempenho profissional alcança 50,7%.
Diante desse quadro, a orientação das entidades médicas é clara: a saúde mental dos intensivistas deve ser tratada como prioridade em políticas públicas, e não como uma questão periférica. A necessidade de mobilização de gestores e autoridades tornou-se urgente para garantir que o ambiente de trabalho dentro das UTIs não continue a degradar a saúde daqueles que são responsáveis por salvar vidas em situações críticas.







